Espiritualidade e Secularismo

26 out

Ao observarmos o universo cristão atual, somos tentados a crer que a primeira razão seja o caso. O comportamento na área de artes e na mídia tem feito com que algumas pessoas inteligentes rejeitem o cristianismo por completo ao observarem esse fenômeno. Muitas vezes, parece que a comunidade cristã exibe um Q.I aproximadamente trinta pontos abaixo do que o de uma água-viva bem retardada.

Refletindo sobre o assunto, penso que seria  mais verdadeiro dizer que o trágico desinteresse atual na verdade, o sentimento anti-cultural e anti-artístico da igreja vem da falta de compreensão das verdades bíblicas e do cristianismo aplicado às artes. Essa incompreensão não surgiu instantaneamente e não pode ser atribuída a um único indivíduo ou herege. Penso que ela se desenvolveu de duas maneiras específicas.

A primeira é aquela que classifico de desenvolvimento teológico; e a segunda, de desenvolvimento secular.

A verdadeira divisão na vida cristã entre um grupo de atividades e outro é aquela linha que chamamos de pecado. Atos e pensamentos pecaminosos devem ser evitados. Tudo o mais deve ser colocado a serviço da vida cristã, se a nossa existência quiser ser verdadeira e plena. Ou Cristo redimiu o homem como um todo, incluindo cada parte de seu ser (exceto as coisas que são pecaminosas), ou ele não o redimiu. Ou a nossa vida toda se submete ao senhoria de Cristo, ou nenhuma parte efetivamente pode estar submissa a ele.

Ou Deus é o criador do homem todo, do universo todo, e de toda realidade e existência, ou ele não criou nada disso. Se Deus é somente o criador de uma existência platônica dividida que leva à tensão entre corpo e alma, o mundo material e o mundo espiritual, se Deus é somente o criador de um sentimento espiritualizado que se traduz na expressão “louvado seja o Senhor”, então ele não é de modo alguma o EU SOU. Quanto o nosso cristianismo se permite tornar meramente algo espiritual e interiorizado, sem as expressões externas da presença do Deus encarnado no mundo, nossa fé deixa de ter significado. Acredito que seja o que de fato aconteceu com o cristianismo durante o século XX.

A vida dos cristãos passou a ser compartimentalizada.  Isso é espiritual, aquilo não. As artes, a criatividade, a apreciação da beleza, a apreciação da beleza de Deus na bíblia foram colocadas de lado. As artes passaram a ser consideradas como não-espirituais, inapropriadas e de importância secundária em relação aos alvos mais “elevados” e “espirituais” que deveriam ser alcançados pelo rebanho.

Surgiu também um tipo de hierarquia de espiritualidade. Embora isso tenha ido além da esfera artística, afetando outras áreas da vida cristã, produziu efeitos devastadores para a arte, que passou a ser relegada a uma posição inferior.

Os resultados foram terríveis para as pessoas criativas que viviam nessa estrutura. Ou tinham de se curvar e abandonar seus talentos dados por Deus em favor de uma teologia feita por homens, ou iam embora viver sua vida longe da igreja. Infelizmente muitos fizeram a segunda opção. O vazio deixado pelo desaparecimento de pessoas criativas no seio da comunidade cristã tem se evidenciado especialmente em dois aspectos: falta de habilidade para nos comunicar com o mundo e esterilidade sombria.

O segundo fato, que chamo de “secular”, ocorreu durante esse mesmo período histórico. Algo aconteceu no mundo e infiltrou-se na igreja cristã, afetando-a profundamente. Seguindo a teoria darwiniana da evolução (que gerou o conceito da sobrevivência dos mais competentes e da marcha contínua, inexorável e impiedosa da sociedade, e ao utilitarismo industrial do século XIX), as pessoas começaram a olhar para si mesmas e para o mundo ao seu redor em termos puramente pragmáticos.

Assim, a árvore que outrora tinha valor por sua beleza e pela sombra que lançava sobre o chão úmido embaixo de si, agora só tinha valor por causa dos metros cúbicos de papel que podiam ser produzidos a partir dela. Até mesmo o homem passou a ser mensurado por aquilo que poderia alcançar, produzir, ganhar e contribuir. Todos os atributos do homem, seus talentos e iniciativas tinham de ser justificadas de alguma maneira utilitária. Não era mais suficiente dizer que certo atributo humano era um dom dado por Deus e deveria ser gratuitamente desfrutado e partilhado. Esses dons agora deveriam ser traduzidos em valor utilitário, gerando contribuição monetária ou de algum outro modo para a sociedade. Tinham de ser tornar ferramentas de propaganda, de divulgação ou de geração de recursos financeiros para serem considerados úteis e, portanto, tolerados pela igreja.

A idéia de que indivíduo tem valor em si mesmos porque foram criados à imagem de Deus, quer pudessem contribuir ou não, foi abandonada. O mesmo se tornou verdade em relação aos talentos individuais.

Infelizmente, a igreja também foi contaminada por essa visão. Agora, tudo o que alguém realizava na comunidade cristã tinha de ter correspondências em termos utilitários. Deveria ser útil de alguma forma para a marcha da igreja. Tinha de auxiliar em seu seus esforços, em seus programas, em sua ênfase no crescimento ou em qualquer outra coisa.

Essa má influência já seria suficientemente ruim por si só. No entanto, pior ainda foi que o padrão de utilidade estava baseado em uma visão falsa de espiritualidade, uma visão tacanha e limitada, que selecionava arbitrariamente algumas poucas coisas e as chamava de “vida cristã”, “crescimento espiritual” ou algo assim. Isso foi tudo o que restou da vida cristã plena para a qual fomos redimidos. Esses padrões equivocados foram usados para nivelar todas as iniciativas cristãs de acordo com seu valor utilitário para a igreja.

As artes, a política, a mídia, a ética médica, entre várias áreas, foram particularmente afetadas. Em primeiro lugar foram classificadas como atividades “não-espirituais”. Agora, ainda deveriam dar algum tipo de contribuição útil à igreja.

O que restou da beleza e do espírito criativo que Deus nos deu a da participação significava na sociedade ou na política? Muito pouco.

Frank Shaeffer

Então, agora é sua vez de falar sobre o “Espiritual” e o “Secular”, comente:

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